Marcado: Milson Coutinho Filho

Depoimento: Milson Coutinho Filho

O dileto professor Pautar:

1. Tive a honra de ser aluno do ilustre professor Pautar em três ocasiões bem distintas na minha vida, cada uma numa faixa etária cuja educação e ensinamentos são de densa significância.

2. A primeira delas ocorreu ainda no que, à época, era chamado de ginásio, salvo melhor juízo na 7ª série. Ali, por perto dos 13 anos, estávamos, todos, a passar por profundas transformações: culturais, sociais, hormonais, educacionais, dentre outras diversas, estávamos cruzando a linha da infância e adentrando a tenebrosa fase da adolescência;

3. Imaginem quão não era o sofrimento dos nossos pais e professores diante daqueles inúmeros conflitos que insistiam em rodear nossas imaturas cabeças, tanto no seio familiar quanto, sobremaneira, no escolar, afinal, passávamos mais tempo nos bancos da escola do que na nossa própria casa, uma vez que os estudos não terminavam apenas naquelas horas de Colégio Batista, ainda viriam o curso de inglês, a aula particular, e tantas outras tarefas que nossos pais nos davam para tentar diminuir nosso afã de viver. Nada em vão;

4. Nesse contexto, afigurava-se essencial a presença de professores que pudessem dar-nos não só o caminho do conhecimento, sobretudo, compartilhar das experiências e dicas que a maturidade do passar dos anos nos dá, a preços altos, confesso, mas valiosas. Entre eles, posso indicar o mestre Pautar, sujeito íntegro, culto, de grande caráter, apaixonado pela arte de professorar e, maiormente, um exímio dominador da complexa gramática da nossa língua;

5. Confesso que por diversas vezes me apavorei com as perguntas que ele fazia “ao vivo” para nós, pobres mortais de conhecimento das regras gramaticais, e ele dizia, Coutinho, tal como sempre me chamou, e defenestrava perguntas capciosas que pouquíssimos sabiam responder. Algumas vezes acertei, noutras, passei longe(!);

6. E as provas do ilustre mestre? Meu coração disparava e calafrios tomavam conta deste signatário quando lá vinha a seguinte questão: “analise morfossintaticamente a frase abaixo”. Jesus, pensava eu, ferrei-me. Mas, ao mesmo tempo, vinham as horas de ensinamento do grande mestre somadas a outras tantas de estudo de regras gramaticais e íamos à luta e, então, iniciavam-se horas de cabeça baixa analisando cada palavrinha do contexto da tal frase. Até hoje, tenho pensamentos tenebrosos com os testes do professor Pautar;

7. Brincadeiras à parte, o segundo e, ainda mais importante momento que tive, foi a honra de ser aluno desse cara, com o perdão da intimidade que me permito ter, foi no 3º ano científico, ou seja, às portas de outra mudança brusca na vida de um estudante: deixar de ser adolescente para virar adulto. Acabavam ali as “irresponsabilidades” que a vida permitia dos 5 aos 17 anos, uma vez que todos partiam para uma etapa essencial da vida de um cidadão, qual seja, a escolha da profissão;

8. Novamente tive a graça de ser aluno do Pautar, reiterando as aulas de gramática que já me havia dado, somando-se, naquele momento, ensinamentos de literatura brasileira e redação, certamente dois dos terrores que assolavam os vestibulandos. Mais uma vez meu estimado professor conseguiu impor seus conhecimentos nesta cabeça que ora pensa e escreve, passei em dois vestibulares com muito boa avaliação nas provas de português, literatura e redação;

9. Por derradeiro, na terceira e última oportunidade em que tive o prazer de tê-lo como professor, ocorreu já após a conclusão do curso de Direito, já um homem, com exatos 22 anos, quando nos reencontramos no curso preparatório então ofertado pela Escola da Magistratura do Maranhão. Veja, Pautar ensinando os futuros propensos magistrados a escrever e interpretar corretamente, tamanho o reconhecimento da sabedoria que esse homem possui de uma das mais complexas e difíceis línguas do nosso planeta;

10. Por fim, hoje como advogado, vivo do que escrevo, necessito, diariamente, dos conhecimentos, ao longo do tempo, repassados pelo professor Pautar. Assim, no exercício da minha profissão, tenho a oportunidade de, diariamente, peticionar, contestar, recorrer, enfim, e vejo que muitos outros profissionais da área, lamentavelmente, não possuem conhecimentos da nossa gramática, e penso: esse não foi aluno do Pautar;

11. Confesso que não acho uma má ideia, afinal, se todos escrevessem e interpretassem como ele me ensinou, fatalmente eu teria bem mais derrotas do que vitórias na luta diária da defesa dos interesses daqueles que a mim confiam seus interesses.

Milson Coutinho Filho – ex-aluno e advogado.